Com fronteiras fechadas, importação de vinhos do Paraguai cai 40%

No mercado de vinho, é impossível precisar o volume do descaminho, como é chamada a entrada ilegal e não tributada de garrafas pelas fronteiras. Mas uma análise dos dados de importação de brancos e tintos do Paraguai nestes primeiros cinco meses de 2020 permite estimar que este volume não é pequeno. Com as fronteiras fechadas pelo Covid-19, o volume de vinhos importados com valor acima de US$ 30 (FOB) a caixa de 9 litros caiu 40% na comparação com igual período do ano passado.

Este dado não significa que os paraguaios estão bebendo menos vinho. Na balança comercial do país vizinho, cresceu apenas a compra de rótulos com preços mais baratos, que não são os vinhos comprados pelos brasileiros que cruzam a fronteira entre os dois países ou que entram ilegalmente em nosso mercado. No Paraguai, ao contrário do Brasil, o consumo da bebida em embalagens tetrapack é bem mais comum e é a categoria que reúne estes vinhos e outros rótulos também simples que está crescendo. E lá, nesta quarentena, o país também registra um aumento significativo do consumo de vinho em casa.

Assim, na soma de todos os vinhos e espumantes, a importação do Paraguai cresceu 17% em volume, chegando a 1,141 milhão de caixas de 9 litros (o equivalente a 10,270 milhões de litros de vinho). Em valores, houve uma redução de 26%, somando US$ 11,6 milhões (FOB). Na análise dos vinhos por faixa de preço, a única categoria que cresceu foi das importações com valor de até US$ 9,99 (FOB) a caixa de 9 litros. A alta, aqui, foi de 73% em litros de vinho, o que explica este grande aumento em volume e a queda no valor. Vale lembrar que esta categoria é liderada pelos vinhos tetrapack.

Com os vinhos mais caros, a realidade é outra. Um exemplo é a loja Monalisa, localizada no lado paraguaio da fronteira. Nos primeiros cinco meses de 2019, a loja importou exatas 2.855,7 caixas de vinho de 9 litros (o equivalente a 25,7 mil litros de vinhos). O valor FOB destas compras foi de US$ 493,5 mil. Mas de janeiro a maio de 2020, a importação foi de apenas 115,6 caixas (pouco mais de 1.000 litros de vinho), o que equivale a US$ 32.816,7 (FOB).

Mês a mês, a entrada de garrafas vai apontando a importância das fronteiras para o Paraguai nos vinhos acima de US$ 30 (FOB) a caixa de 9 litros. Os meses de janeiro e fevereiro de 2020, sempre comparado com igual período do ano passado, registram quedas médias de 30% no volume importado no país. Os dados poderiam indicar vários fatores, desde um mercado estocado pelas compras do final de ano. Em março, começou a reação e a importação cresceu 13%.

A realidade mudou completamente em abril e maio, que são os primeiros meses de plena quarentena. Em abril entraram no Paraguai 8.121,3 caixas de 9 litros, contra as 27.636 caixas de 2019. A queda é de 70%. Em maio, o volume caiu para um terço do que era no ano anterior. Entraram 7.745,5 caixas de 9 litros, contra as 21.042,7 caixas de 9 litros do mesmo mês do ano passado.

Os vinhos mais consumidos pelos brasileiros são aqueles importados pelo Paraguai por um valor a partir de US$ 30 (FOB) a caixa de 9 litros. E aqui há quedas significativas em volume de compra. Na faixa de US$ 30 a US$ 39,99, a redução foi de 30%; entre US$ 40 e US$ 49,99, de 57%. Entre US$ 50 até US$ 74,99, foi de 31% e de US$ 75 até US$ 99,99, de 90%. E acima de US$ 100, a queda foi de 48%.

Se somadas todas as faixas de preço, a partir de US$ 30 a caixa de 9 litros, a queda foi de 41% no volume de vinhos e espumantes que deixaram de entrar no país. Foram importados para o Paraguai 62.349 caixas de 9 litros de vinho e espumantes, contra 105.305,9 caixas que entraram no país de janeiro a maio do ano passado. Nos espumantes (o que inclui também os champanhes), a redução foi de 68% em volume, com 6.924,5 caixas de 9 litros, e de 50% em valores (um total de US$ 850,7 mil FOB).

França, Argentina e Itália, nos espumantes, e Chile, Argentina e Itália, nos vinhos finos, são os países com maior retração desta importação. Apenas dos espumantes, a França deixou de exportar para o Paraguai 3.317 caixas de 9 litros nos cinco primeiros meses do ano em comparação com igual período de 2019. Em valores, o faturamento FOB passou de US$ 795,9 mil para US$ 541,3 mil.

Nos vinhos, o Chile teve uma redução de 3 mil caixas, passando de 27.742 para 24.646. Na Argentina, a venda para o Paraguai caiu pela metade. Das 48,576 caixas de 9 litros vendidas para o país vizinho de janeiro a maio do ano passado, passou para 24.341 caixas, ou aproximadamente 290 mil garrafas. Na Itália, das 2.196 caixas de 9 litros, passou para 1.542,9.

Não é de hoje que o descaminho preocupa e desfavorece o comércio de vinhos no Brasil. Em 2018, a Ideal Consulting publicou um estudo com a estimativa de vinhos que entram pelas fronteiras brasileira. A projeção, na época, era que 7,2 milhões de litros de vinho apenas do Paraguai e do Uruguai chegavam por estes caminhos não ortodoxos em nosso país, sem contar neste número os vinhos que vem da Argentina de forma não oficial. Apenas para comparar, o Brasil importou legalmente 115,9 milhões de litros de vinho em 2018.

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